Tuesday, August 14, 2007

Comentário


Ao completar um ano da morte de Laís, crime perpetrado pelo desalmado e truculento Malhado, uma criança e dois adolescentes matam uma senhora de 87 anos, a pauladas, na mesma cidade de Limoeiro (PE). Os meninos disseram que iriam roubar umas galinhas e bateram na anciã para desmaiá-la.
Que saudade do tempo em que crianças e adultos se respeitavam mutuamente. Ninguém temia mandar um filho para a escola, na companhia de um adulto, e nenhum adulto temia a companhia de uma criança.
Faz um ano que
a Justiça não protegeu a sociedade, de Malhado, mas impediu que a sociedade o malhasse.
Sosígenes Bittencourt

Monday, August 13, 2007

Papai da Cidade


Sou torcedor do Sport desde quando via minha avó paterna, dona Celina, tomar banho e colocar perfume para ouvir o jogo pelo rádio. E tem mais detalhe. No ano em que fui dado à luz, 1955, o Sport sagrou-se campeão, vencendo o Náutico por 3 a 2, com a seguinte escalação, que meu pai recitava orgulhoso e que eu, feito um papagaio, terminei decorando: Osvaldo, Bria e Pedro Matos, Osvaldinho, Eli e Pinheirense, Traçaia, Naninho, Gringo, Soca e Geo.
Este ensaio é para dizer o quanto fomos presenteados pelo Papai da Cidade, às vésperas do Dia dos Pais, com esses 3 a 0 sobre o Juventude. E queremos citar, como se fora numa rima, que estamos satisfeitíssimos com o nosso artilheiro, o fuzileiro e endiabrado Carlinhos Bala, que puxa a bola, toca pra frente, e todo mundo sai correndo atrás. É fogo, ou não é?
Sosígenes Bittencourt

Saturday, August 11, 2007

Em frente ao cemitério





Em frente ao Cemitério da cidade, havia um pega-bêbado, cujo proprietário, que via o desfile dos mortos há anos, afirmava não acreditar na própria morte. Convém salientar, nesse instante, que o mesmo já se encontra rigorosamente morto.
Certa noite, vieram uns feirantes lá dos lados de Natuba e me pediram que recitasse uns versos com o cemitério, mas que fosse coisa simples, pois não entendiam de palavras difíceis.
Pedi licença para ir ao sanitário e, quando voltei, recitei uns versos que aprendi com o motorista Amaro Luiz de França, popularmente conhecido como Mário do Bar ou Mário da Praça:

Rezei mais de um mistério
quando pensava na vida
que a diferença da vida
pra morte é um caso sério.
Olhando pro cemitério
com suas portas fechadas
cruz pendida, cruz quebrada
catacumba velha e nova
tudo isso é dando prova
de que a vida não vale nada.

Sosígenes Bittencourt


Friday, August 10, 2007

Comentário



Finalmente, depois de 15 anos de namoro e 3 filhos, Fernandinho Beira-Mar vai se casar. A corajosa e indiscutivelmente fiel Jacqueline Alcântara de Morais não irá vê-lo, porque Fernandinho está na Penitenciária Federal de Campo Grande (MS), sem poder botar a cabeça na janela. A menos, quando vai passear por outros presídios, fazendo rápidos piqueniques por outros estados. Um advogado o representará no cartório, sem direito a aperto de mão e ósculos faciais. O matrimônio não tem ainda data definida, mas será com comunhão de bens e males. Em Campo Grande não tem mar, mas o casamento será uma onda.

10 de agosto de 2007

Sosígenes Bittencourt

Thursday, August 09, 2007

Comentário



Depois que inventaram essa história de Congelamento de Preço, o assalariado entrou pelo cano. Porque o preço, quem faz é o dono da mercadoria, e o salário, quem faz são os políticos, que pagam o que querem a si mesmos, e o resto que se dane Futebol Clube.

09 de agosto de 2007
Sosígenes Bittencourt

Wednesday, August 08, 2007

O Saber mais que Show e Milhão


Você sabia...

Que a moléstia é o objeto de estudo da Patologia?
Que Xerazade é o nome da personagem de “As Mil e Uma Noites” que conta a um sultão uma série de histórias, visando adiar a própria morte, já decretada?
Que A Relíquia é um romance de Eça de Queirós?
Que a cavadeira é uma peça de ferro com gume, destinada a fazer buracos na terra?
--------------------------------------
Que nome tem a competição automobilística anual que se inicia na França e termina no Senegal?
( ) Fórmula Indy
( ) Rali Paris-Dacar
( ) Fórmula Ford

Renda e bordado são artesanatos típicos do:
( ) Maranhão
( ) Sergipe
( ) Ceará

Qual o nome de um dos fundadores e principal representante do Concretismo no Brasil?
( ) Décio Pignatari
( ) Jorge de Lima
( ) Mário de Andrade

Qual a designação do acúmulo de pus numa cavidade corporal?
( ) tumor
( ) abscesso
( ) quelóide

Respostas na próxima edição

Tuesday, August 07, 2007

Retrospectiva


O povo não sabe o que é inflação nem deflação, sabe o que é aflição.

Na Feira de Cavalo,
os animais tinham mais porte de gente do que os homens.

À alimentação macrobiótica, prefiro a “microbiótica”.

O único benefício da aids é impor o uso de camisinha-de-vênus.

Desde minhas fraldas que eu ouço dizer que a vida vai melhorar.
(Agosto - 1987)

Não só de sonhos vive o “eleitorado flutuante”.

Em Nairobi, elefantes que perderam a mãe
são alimentados por gigantescas mamadeiras, em doses para elefante.

Conselho para tempo de Campanha Política:
Mantenha Distância dos caminhões em praça pública.

No aniversário de Guimarães Rosa,
uma justa homenagem pelas flores que semeou no coração pátrio.

Os vira-latas do Recife já não viram latas,
viram cinzas.
(Agosto - 1988)

Sosígenes Bittencourt

Friday, August 03, 2007

Batalha das Tabocas


Registro memorabilíssimo de nossos feitos heróicos foi o carreirão que os insurretos pernambucanos deram na pirataria batava, no Monte das Tabocas, a 48 km da Ribeira Marinha dos Arrecifes. Contam que foi às 13:30 h, do dia 3 de agosto de 1645, a refrega mais encarniçada, com os bravíssimos heróis pátrios emergindo da moita dos tabocais, e os holandeses margeando o rio Tapacurá. A conflagração durou a tarde toda, até que, à Hora do Ângelus, os neerlandeses deram o pira, abandonando garruchas, cadáveres e alforjes, embarafustando-se pelo breu da mata, ao coaxar dos sapos e cricrilar dos grilos, sob o céu escampo do Brasil.
Sosígenes Bittencourt

Thursday, August 02, 2007

Não ria se puder


Conselho
Um dia de sábado, amanheci com um cidadão de Glória do Goitá em minha porta me perguntando se eu era Pai de Santo. Abismado com o paradoxo, pois nem cara de Pai de Santo eu tenho, resolvi interpelá-lo:
- Embora não seja Pai de Santo, por questão de curiosidade, o senhor poderia me dizer o que o incomoda tanto?
- É que eu arrumei uma mulher casada lá em Glória do Goitá, e o marido dela está me procurando para me matar. Eu queria que o senhor me ajudasse e me dissesse quanto era a consulta.
- Bem... eu vou lhe dar um conselho de pai e não vou lhe cobrar absolutamente nada. Arrume as malas, largue a mulher e dane-se de Glória do Goitá.
Sosígenes Bittencourt

Sosígenes Bittencourt



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Wednesday, August 01, 2007

Quebra-pau na Leão Coroado








Palco de desavença e quebra-pau foi o Circuito do Frio na Praça Leão Coroado. A macacada valorizou bem a palavra "circuito". Estava dando choque. Vi um bafafá que empenou uma barraca. A cada qüiproquó, a mulherada danava-se a correr e gritar, como se fugisse da morte. Parecia Guernica, o painel do pintor Pablo Picasso, realizado em 1937. O calçamento irregular e a calçada acidentada me herdou dores nos meniscos. A mulher mais enfeitada era um homossexual que veio do Recife, sensual de excitar um padre de pedra. Sem a devida infra-estrutura "mictória", só não urinaram na empanada do céu.

Boa sorte e até outras orgias!

Sosígenes Bittencourt

(Foto: Beto)

Tuesday, July 31, 2007

Quadro de Medalhas - Pan 2007











Estados Unidos:
(Ouro 97) (Prata 88) (Bronze 52)
total 237
Cuba:
(Ouro 59) (Prata 35) (Bronze 41)
total 135
Brasil:
(Ouro 54) (Prata 40) (Bronze 67)
total 161
Canadá:
(Ouro 39) (Prata 43) (Bronze 55)
total 137
México:
(Ouro 18) (Prata 24) (Bronze 31)
total 73


Saturday, July 28, 2007

Fala, Vitória


Botando Moral
A juíza, ao saber do show de Raça Negra, no bairro do Cajá, mandou chamar os barraqueiros que armam suas tendas de birita e tira-gosto, para adverti-los de que estava terminantemente proibido montar tenda em calçada de residência e ligar som no meio da rua. Botou moral. E ainda avisou que a polícia vai pastorar. Festa, para ela, não é sinônimo de desrespeito. E lei é para ser cumprida. Deve ter sido o efeito de abaixo-assinado contra as orgias perpetradas na rua, durante apresentações dos Saia Rodada da vida, quando pitam marijuana, fazem xixi e nenen a céu aberto, estrondando decibéis no pé do ouvido da velharada. Os idosos ficam sentados no meio da casa, a se entreolharem, mudos, como se fossem bonecos num estranho museu de cera. Sempre apreciei um cabarezinho, mas lá no seu lugar. Rua de família tem de ser respeitada.
Palmas para a juíza, e muito obrigado!
Sosígenes Bittencourt
(Para dar o seu pitaco é só clicar em "comments", e a página estará na frente do teclado, que é a sua caneta.)

Friday, July 27, 2007

Um morto andando pela cidade



* 19/07/1955
+ (?)

Amanheço morto na cidade. Tomo conhecimento de que morri logo cedo. Sou um morto muito especial, porque posso negar a minha morte, abrir a porta e sair andando, respirando o ar, rever as ruas, os lugares antigos por onde passei quando criança e que o tempo foi modelando, ora para melhor, ora para pior. Posso perceber, agora, que alguns lugares é que morreram. Caminho com um ar importante pelas ruas, porque posso descrever o que desapareceu. O cheiro do Café São Miguel, as meninas do Colégio Municipal, picolé de mangaba, disco de vinil com o retrato de Carlos Gonzaga, sessões dominicais de cinema, com sabor de ping-pong, Rock Lane a cavalo. Sou um morto que pode contemplar o nojo, a paixão e o tédio dos que me rodeiam e me julgam. Tenho direito a mais um dia, um jantar, telefonar para marcar um encontro. Principalmente, ir ao encontro e praticar, meticulosamente, a arte de dar e receber amor, como na milenar receita de Vatsyayana, o Kama Sutra de todo dia. Sinto-me vaidoso de minha morte. Sem esquife, castiçal, lampejo de vela, coro lúgubre de carpideiras e meu derradeiro desfile, horizontal, pela cidade.

Respondo a alguém que me telefona para saber a verdade: - Morrer na boca do povo faz mais sucesso do que morrer de verdade. Não é todo dia que se é um morto andando pela cidade.

Lembra-me os versos de Mário Quintana:

Da primeira vez em que me assassinaram

Perdi um jeito de sorrir que eu tinha...

Depois, de cada vez que me mataram,

Foram levando qualquer coisa minha...

Sonho com alguém me perguntando: - Sosígenes, você andou morrendo ?

- Não, ando sem tempo para a morte.

Sosígenes Bittencourt

Wednesday, July 25, 2007

Leão


22 de Julho
a
22 de Agosto
Elemento: Fogo
Regente: Sol
Verbo: Eu sou
É generoso e brilhante, mas pode ter
um toque de egocentrismo e arrogância.
Interpretação:
Domínio, autoridade e ambição.
Integridade, fidelidade e sinceridade.
A tendência a liderar é inata.
As afeições são profundas e duradouras.

Personalidades: Caetano Veloso, Daniela Mercury, Jorge Amado, Madonna, Fernando Collor, Elba Ramalho, Bill Clinton, Antonio Banderas.



Monday, July 23, 2007

Morte de Sósthenes



* 12/02/1945

+ 23/07/2007





Morre nesta manhã fria de julho, o meu primo Sósthenes Bittencourt. Durante quantas manhãs frias como esta, eu o vi, sorridente e sonhador, como um exagerado amante dos prazeres da vida. Bebia e fumava, preso às amarras do vício, como quem celebrava a existência, menosprezando a morte.

A morte de estranhos pode nos consternar, mas a morte de conhecidos nos faz recordar. Imaginamos o seu semblante, parecendo ouvir sua voz. Conheci-o na residência de minha avó Celina, na rua do Colégio das Freiras, em Vitória de Santo Antão. Ali, ao aroma da flor dos coqueirais, à Hora do Ângelus, ensaiei meus primeiros cigarros. Nas viagens dominicais a Caruaru, bebi minhas primeiras cervejas em sua companhia. A compulsão quase metafísica por mulher urdia sua vereda. Dá-nos a impressão de que morreu de viver, na inebriante dedução de que o amor pela vida é o contrário do amor por uma longa vida. Em última análise, todos somos condenados à Indesejada das Gentes, como no dizer do poeta da Rua da União. Miguel Torga dizia que “nós somos cadáveres adiados.” A meu ver, há duas coisas incompreensíveis na vida: nascer sem pedir e morrer sem querer. Talvez, por isso, devamos pensar no lado invisível da vida; afinal, não levaremos nada de tudo que enxergamos na vida. Muda o homem de habitat cósmico, encanta-se, e sobrevive imaterialmente em memória. Já não o escutamos direito, mas ainda relembramos sua voz; não ouvimos os seus passos, mas conhecemos os seus antigos caminhos; já não podemos dialogar, mas relembramos seus procedimentos; não o vemos entre nós, mas seus pertences nos animam a memória.
Até mais, Tuca. Recomenda-nos a teus pais. Em breve, estaremos juntos, noutra esfera, a saber dos segredos só a ti revelado.
Vitória de Santo Antão, PE – 23/07/2007
Sosígenes Bittencourt


Sunday, July 22, 2007

TAM TAM TAM TAM


Enquanto colidem opiniões sobre caos aéreo, passageiros ficam voando em aeroportos. Ou seja, perambulando e pernoitando à procura de informações, cada vez menos convincentes. Os considerados ricos nunca foram tão maltratados. Entram em filas intermináveis, dormem no chão, por cima de bolsas, abraçados a pertences, urinando e lanchando, como se estivessem numa rodoviária suburbana, chorando de saudade, entediados com o desconforto. Pobres passageiros. Indagado, certa vez, sobre o que sentia ao voar pela Tam, respondi, perguntando: - O que lhe lembram 4 aviões da Tam, pousados num hangar de aeroporto?
Depois de refletir, o interlocutor: - Não tenho a menor idéia.
Aí, eu: - É fácil. 4 aviões da Tam, sisudos, a nos olhar, do hangar de um aeroporto, lembram a 5ª Sinfonia de Beethoven, aquela cujo início anima as expectativas lúgubres: TAM TAM TAM TAAAAAAAAAAAAM...
Não, os tantãs não somos nós, são as autoridades que verdadeiramente brincam com nossas vidas, desde os impostos que pagamos aos benefícios que não recebemos e explicações que não obtemos. Se a causa do desastre do airbus A320 foi no freio aerodinâmico, conhecido como conversor, ou se foi falta de ranhuras na pista, conhecidas como grooving, são meras explicações mediante a amargura geral. Que é dos cento e tantos passageiros que, entre o pouso e a morte, não tiveram mais que 30 segundos, para refletir sobre suas vidas, ajoelhar em oração? Parece brincadeira que o avião desceu destrambelhado, escorregou numa poça d’água, para dar um cavalo de pau sobre uma avenida e enfiar-se num prédio ao lado. Esse videogame macabro já passou antes. Está registrado na memória daqueles que, em outros dois momentos, enlutaram, pelo relaxamento dos que não cuidaram.
Sosígenes Bittencourt

Tuesday, July 17, 2007

Os abutres de Jaguarana


Carnificina é o termo para o sacrifício da pequena Isabel, contando 11 anos de vida, no açude de Jaguarana. Só porque a menina viu a tia transando com um playboy, mereceu tão triste sina. A megera Damiana, há três anos, chafurdava com o rapazola Orlando Gomes da Silva, de 18 anos, plantando chifre no marido. Galheira até o solado das patas, não queria que ninguém fuxicasse. Talvez, tenha tentado dissuadir a pequena Isabel de contar a história para o tio. Mas, para afastar a possibilidade da criança bater com a língua nos dentes, resolveu pagar para darem fim à inocente. Apesar de revelar que não sabia que era traído, o enganado afirmou categoricamente que achava sua mulher capaz de praticar semelhante atrocidade. Depois do arrocho, o criminoso de 16 anos abriu o jogo e contou que Damiana lhe prometera 500 reais pela execução da menina, adiantando-lhe 250 pelo compromisso. E saber que esse menor só passará 3 anos submetido a medida sócio-educativa, é muita regalia para esse verdadeiro brinquedinho do cão. O menino estuprou a criança e ainda a afogou no açude. Não teve um ceitil de remorso, medo dos castigos do céu, ou de morrer no cacete, linchado pela turba ensandecida de ódio. Indignado, o delegado Paulo Jean conta que, já desmaiada e sangrando, a menor fora afogada, com a assistência macabra da mentora do crime e do seu namorado assassino. Como se não bastasse, ainda lavaram o corpo da vítima para eliminar vestígios e impressões digitais. Os Herodes de Jaguarana são Damiana, Orlando e um menor de 16 anos. Tripudiaram sobre a indefesa Isabel, como se estivessem brincando de matar. Em determinados estados, nos Estados Unidos, iam ser submetidos a uma injeção letal. Aqui, correm o risco de sofrerem pena capital na prisão. Por incrível que pareça, há código de ética entre presos. Ranger de dentes e punhos a postos já ensaiam a execução das rapinas de Jaguarana. Damiana não queria ser contrariada em suas relações sexuais com Orlando. Agora, nem o namorado, nem o enganado, nem a liberdade. E, para incrementar o ritual de desgraça no qual se enredou, o risco de morte que correrá pelos corredores da prisão. Quanta miséria testemunhada pelo espelho das águas. Quanta dor, quanta revolta pelo trucidamento de tão indefesa menina, sob as garras assassinas dos abutres de Jaguarana.
Sosígenes Bittencourt

Aplauso oral


No Rio, presidente é aplaudido com a boca.
Isso significa que as elites estão mais insatisfeitas com o presidente do que os 50 milhões de miseráveis desse país. A vaia não partiu de nenhum assalariado nem aposentado do INSS, partiu de quem tem folgados 200 reais para ver uma abertura de Pan ou qualquer outro espetáculo no momento que quiser. Essa é a elite que odeia a miséria e, por isso, é vítima do terrorismo dos que não têm juízo para serem humilhados. Não tenho procuração para defender Lula e ainda acho que é preciso que se faça mais para conter a multiplicação de miseráveis. Caso contrário, estaremos cada vez mais enclausurados pela rebelião dos sem-nada, o lúmpen de que falava Karl Marx, o lixo das classes sociais. Desde o século anterior, antes do alvorecer desta era, que digo: Este é o milênio da solidariedade: ou seremos solidários, ou seremos solitários.
Sosígenes Bittencourt

Sunday, July 15, 2007

É larva, é pupa, é aedes aegypti!


Vitória de Santo Antão - PE
25 / 02 / 2002

Bichinho arreliado é o tal do aedes aegypti. Ob-reptício. Nele cabem todos os adjetivos, inclusive os mais repelentes. Ardil e dolo, na sua forma, no seu jeito de atacar. A muriçoca ainda executa uma sinfonia, anunciando o seu voejar lúgubre. O aedes pica de dia, veste meião alvi-negro e, diferentemente da maioria dos animais, é a fêmea que é perigosa. Enquanto o macho habita a flora, sugando o néctar do verde, ela bebe, vampirescamente, o sangue da vítima. Caprichosa, desova, preferencialmente, em água cristalina e estagnada. O seu ovo é larva, é pupa, é aedes aegypti!
Embora minúsculo, quase imperceptível, é animálculo potencialmente forte. Democrático, abrange todas as classes sociais - os políticos é que se desentendem na disputa da cura de seus efeitos letais. Submete os humanos a toda sorte de vexame, debruçados sobre cisternas, revirando tonéis, pendurados em caixas d'água. Apavorados com as calhas, as lajes, vão emborcando latas e garrafas, catando lixo, do Grajaú a Humaitá, Gávea a Caxambi. Nem a cantora Joyce, canora, é poupada na Zona Sul do Rio de Tom, perfurada na pele, submetida a febre de 40 graus, entrevendo o corcovado em sonhos. O seu ovo é larva, é pupa, é aedes aegypti!
Pica o ator Stênio Garcia, fazendo de sua rotina uma pura novela. Fere a ninfeta Ana Paula Arósio, lambuzando o seu sangue, destrona o momo do samba, prometendo singrar as águas de março, eleger-se o rei do rio. O ser humano parece um Siefried caduco, derrotado por uma revoada de Nibelungos. Só lhe resta uma nuvem de fumacê e acender uma vela de andiroba: para o aedes, ou o homem?
As suas Dengues podem ser Clássicas ou Hemorrágicas, conforme humilhe ou ameace de morte seus enfermos tontos, enjoados e febris.
Sosígenes Bittencourt

Wednesday, July 11, 2007

Confuso espancamento


Meninos que espancam doméstica, sob a alegação de confundirem com prostituta, e que queimam índio, pensando tratar-se de mendigo, têm algo em comum, são pouco conhecidos pelos pais. Tanto que um deles, que não sabia o que o filho fazia, ficou espantado quando o encontrou na delegacia. Duvido dizerem que não criavam seus filhos com muito amor, dando-lhes de tudo, com todo o carinho, sem nenhum carão. Esquecem que amar filho dá trabalho. Às vezes, é preciso ler um livro. Mas, não precisam ficar tão desesperados, pois os bad boys que queimaram o pataxó Galdino Jesus, lá em Brasília, já estão esgaravatando os dentes. À época, ao contrário de serem reconhecidos como violentos, os garotos foram considerados apáticos e melancólicos, com irresistível compulsão para se divertir. Baseada na suposta mera criancice dos adolescentes, a juíza Sandra de Sanctis Mello, caprichando pra santa, considerou que as “crioncinhas” não tiveram “animus necandi”, ou seja, “intenção de matar”, mas apenas de ferir o dorminhoco. Por Jesus! E nem adianta mais baixar bodurna e tacape no caso. Agora, a barra pesada vem da Barra da Tijuca e são novamente meninos de classe média, acabrunhados e doidos por emoção. Tomaram um birinaite em São Gonçalo e retornavam com o espírito de Zé Pelintra na matéria. Deram um puxavante na bolsa da doméstica Sirlei Dias, de madrugadinha, e chutaram-lhe o crânio como se confundissem com uma bola. Aliás, confusos por natureza, confudiram-na com uma prostituta. Quem deve estar puta da vida com essa história é Nanci Feijó, a meritosa presidenta da Associação Pernambucana das Profissionais do Sexo (APPS), já forçando a porta do Ministério Público, para enfiar documento contra a “fuleiragem music”, praticada pela banda Matruz com Leite, que jogou uma “Bomba no Cabaré”, acordando a galera do meretrício.
Sosígenes Bittencourt

Monday, July 09, 2007

Pinto do Monteiro


Cantador, poeta e repentista
* 1895 Monteiro, PB
+ 1988 Sertânia, PE
Ingressando numa cidade pernambucana, a passeio, Pinto do Monteiro juntou tanta gente no meio da rua, que um velho amigo observou:
- Pinto, você parece Jesus!
Aí, Pinto:
Não me chame de Jesus
Pelo amor de Nosso Senhor.
Jesus era um Salvador
E eu sou um pecador.
Eu nasci em Monteiro
E Jesus nasceu em Belém.
Jesus salva todo mundo
E Pinto não salva ninguém.

O Saber Mais que Show e Milhão



Você sabia...

Que a Etiópia é o país da África Oriental cuja capital é Adis-Abeba?
Que Apocalipse é o Livro da Bíblia escrito pelo apóstolo João?
Que o meridiano é o círculo máximo que passa pelos pólos?
Que o verbo que não é conjugado em todas as formas, tempos e modos é denominado defectivo?
--------------------------------------
Qual o objeto de estudo da Patologia?
( ) moléstia
( ) micróbio
( ) célula

Que nome tem a personagem de “As Mil e Uma Noites” que conta a um sultão uma série de histórias, visando adiar a própria morte, já decretada?
( ) Aladim
( ) Xerazade
( ) Xariyar

Qual destes é um romance de Eça de Queirós?
( ) As Farpas
( ) A Relíquia
( ) A Lã e a Neve

Qual a peça de ferro com gume destinada a fazer buracos na terra?
( ) britadeira
( ) ceifadeira
( ) cavadeira

Thursday, July 05, 2007

O rato


A princípio, eu pensei haver sido um rato. Aliás, pela pancada na porta do apartamento, um rato grande, ou seja, um guabiru. Então, com receio de que fosse mesmo o repelente flagelo das civilizações, temi abrir a porta. Em seguida, ouvi ruído de papéis na garagem. Quase não havia dúvida. Mas, como passei a ouvir abrir de caixas, o som da grade do terraço e da estante esmaltada, passei a pensar que fosse meu pai. Porém, o que estaria fazendo meu pai ali, de madrugadinha, sem medo de me fazer medo? – perguntei, cá com meus botões. Minhas mãos ficaram frias, o sangue me fugira das extremidades, o cabelo se me arrepiara. Não, não era um rato, o transmissor da leptospirose, nem meu pai, não era nada disso. Pelo temor redobrado que sentia, intuitivamente, devia ser um rato humano. Pensei em ligar para a polícia, porém o ladrão poderia estar armado, pois ladrões não obedecem lei de desarmamento. Tive medo de que tentasse arrombar a porta. Ladrões que penetram em imóvel alheio, na calada da noite, são arrombadores. E os de hoje não usam mais roupas de ladrão como antigamente, máscaras, nem vêm de longe. Às vezes, são moradores do bairro, desses que vão à igreja, casamento, torcem pelo nosso time e tiram nossas namoradas para dançar. Na minha biblioteca e no meu apartamento não tem arma, tem alma, literatura e ciência. Finalmente, um silêncio expectante tomou conta da garagem e biblioteca ao lado. Esperei que o galo anunciasse a manhã e os passarinhos sobrevoassem o cômodo onde repousam as coleções de livros. Quando contemplei pelas janelas a aurora e inalei o eflúvio matutino, abri a porta e penetrei no espaço violado pelo rato. O rato era mesmo a metáfora de um homem. Tudo revirado, não levou um romance; sequer a Antologia Poética de Carlos Drummond de Andrade, onde se lê “Morte do Leiteiro”. Mas, em meio ao desapontamento, uma constatação óbvia: o ladrão era narcisista, pois roubara o meu espelho.
Sosígenes Bittencourt

Alegria


Dr. Aloísio de Melo Xavier
Nasci um sujeito alegre, felizmente.
Em menino, pratiquei muitas peraltices e brincadeiras,
graças à minha natural inquietude,
que não me dava tréguas.
Comecei a entender, desde então,
o imenso valor da alegria,
contrapondo-se aos problemas e às misérias
da vida humana.

Fidelidade

Ser fiel é a minha sina.
O melhor jornal de Vitória
é o de Carpina.
Sosígenes Bittencourt

Monday, July 02, 2007

Sosígenes Bittencourt











Rua Euclides Nery de Oliveira, 128
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Câncer


21 de junho
a
21 de julho
Elemento: Água
Regente: Lua
Verbo: Eu sinto
Os cancerianos são pessoas emotivas, sensíveis e impressionáveis.
Em geral, mostram-se generosas, preocupando-se com o sofrimento dos outros.
Têm grande força de vontade e se apegam a uma idéia com perseverança.

Thursday, June 28, 2007

Retrospectiva


Há 19 anos
Em São Lourenço da Mata, uma empreiteira joga ossos humanos na via pública. O povo, revoltado, faz a caveira do prefeito. São os ossos do ofício.

O alcoólatra sempre inventa um motivo para beber. Um bebeu para comemorar a resolução de ingressar no A. A.

Haja doador de bom rim para salvar portador de rim ruim no Nordeste.

O sertanejo prefere morrer de sede no Sertão a pagar conta d’água na Zona da Mata.

A Funai nem liga para as reclamações da tribo Pataxó Hã-hã-hãe. Nem nem nem.

(Junho - 1988)
Há 18 anos

Os iranianos passam 40 dias de luto, esmurrando o peito e dando tapa na cara, pela morte de Khomeini. (Eles merecem.)

Com o novo aumento do cigarro, como fumar se-me-dão, se não me dão?

Aproxima-se o São João. É preciso espigar-se todo para enxergar uma espiga de milho. Milhas de terra dariam milho aos milhares, enquanto a fome campeia em milhões de vísceras.

(Junho - 1989)
Sosígenes Bittencourt

São Pedro














São Pedro (segundo a tradição teria morrido em cerca de 67 d.C.) e foi um dos doze Apóstolos de Jesus Cristo.
O seu nome original não era Pedro, mas Simão.
Cristo apelidou-o de Petros - Pedro, nome grego, masculino, derivado da palavra "petra", que significa "Pedra" ou "rocha".
Jesus ter-lhe-ia dito: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e o poder da morte não poderá mais vencê-la.
Pedro tem uma importância central na teologia católico-romana. É considerado o príncipe dos apóstolos e o fundador, junto com São Paulo, da Igreja de Roma (a Santa Sé), sendo-lhe reconhecido ainda o título de primeiro Papa.
PAPA quer dizer: Pedro Apóstolo, Príncipe dos Apóstolos.

(Leia em forma de oração. Sem leitura, não há salvação.
Sosígenes Bittencourt)

Monday, June 25, 2007

Nascida para Viver



Nem um acidente de trânsito, no princípio do mês, numa viagem ao interior do Rio, impediu que a rainha do deboche interasse um século de existência. O jornalista Austregésilo de Athayde dizia que “os homens foram condenados a morrer, e ele, condenado a viver.” Bela frase para Dercy Gonçalves, completando 100 anos de anarquia. Reflexões como “a vida é muito boa, contanto que não a levemos muito a sério” e “seriedade excessiva produz úlcera” parecem ter um certo sentido. Tem gente que, de tanto esquentar a cabeça, sua pressão sobe até com água. Se aperreio pagasse compromisso, valeria a pena viver aperreado. E ainda tem mais, Dercy não está nem aí com a morte. Inventaram uma festa para comemorar seu aniversário no dia 6, e ela, sem comer uma fatia de bolo, ainda pediu 15 mil reais pela presença. O ruge-ruge foi no Brooklyn, zona sul de São Paulo. É isso aí, bicho! Numa de suas apresentações teatrais, entrou no palco, deitou-se sobre uma mesa e abriu as pernas em forma de “V” diante da platéia. Não precisava ter feito mais nada. Ainda hoje tem gente que dá gaitada. Quem nasceu para fazer rir, faz bem aos outros e a si mesmo. Não é em vão que já utilizaram palhaços em hospitais de criança, como auxiliares na cura. Nascida em 23 de junho de 1907, a indolor Dolores Gonçalves Costa, solta gracinha com o tempo. Diz que, na realidade, está completando 102 aninhos, pois seu pai só a registrou dois anos depois de seu nascimento, em Santa Maria Madalena, no Rio de Janeiro. Em entrevista, revelou que só começou a pensar na morte aos 40 anos e que seus 100 anos só pesam um pouco na bexiga e no intestino. Disse ainda que não fuma e não é tanque de combustível para botar álcool dentro de si. Certa vez, perguntaram a uma centenária, no Rio, se ela tinha medo da morte. Resposta: – Eu não, tem gente que tem e morre do mesmo jeito.

Sosígenes Bittencourt

Saturday, June 23, 2007

Das advertências dos perigos são-joaninos


Não solte fogos de artifício.
Queimadura é o maior suplício.

Não solte fogos na cozinha.
Você pode virar cardápio.

Não solte fogos, segurando com os dedos.
Você pode perder a cabeça e os dedos.

Não aponte os fogos pra ninguém.
Isso pode gerar um debate, em júri popular,
sobre a diferença entre “culpa” e “dolo”.

Não deixe criança junto de fogueira.
Ela pode querer medir a temperatura do fogo
com a palma da mão.

Não jogue álcool na fogueira –
respeitabilíssimo suicida –
a garrafa pode explodir.

Não pule a fogueira, de nádegas sintéticas.
Você pode virar um foguete.

Não corra em chamas, pois o vento
servirá de abano. Role pelo chão,
à maneira dos desesperados.

Sosígenes Bittencourt

Tuesday, June 19, 2007

São João e São João


Das três maiores festas anuais, o São João é a mais singela e tradicional. O Ano Novo nos trespassa de tristeza, porque sugere a contagem do tempo e amontoa os mortos. Abrimos álbum de retrato e botamos pra chorar. O Carnaval é uma festa perigosa, de extravasar frustrações. O pessoal só falta correr nu pela rua. O São João é uma festa mais pacata, que relembra nossas tradições mais atávicas, nossas raízes culturais. Lembro-me do São João das ruas sem calçamento. O mundo parecia um terreiro só. As mulheres cruzavam as pernas, enfiavam as saias entre as coxas, para ralar o milho e o coco, enquanto os homens plantavam o machado nos toros de madeira para fazer as fogueiras. À tardinha, o alguidar de barro virava uma lagoa de caldo amarelo onde fervia o maná das comezainas juninas. A meninada ensaiava o jeito de ser homem e mulher. De chapéu de palha, bigode a carvão e camisa quadriculada, era quando podíamos chegar mais perto das meninas sem levar carão nem experimentar a sensação de pecado. O coração se alegrava quando sonhávamos com a liberdade de adultos que teríamos um dia. Batia uma gostosíssima impressão de que estávamos bem próximos de fazer o que não podíamos fazer. Os ensaios de quadrilha relembravam a tristeza do último dia. Pois um ano durava uma eternidade, as horas eram calmas, podíamos acompanhar a réstia do sol e contar estrelas. Pamonha, canjica e pé-de-moleque eram tarefas de dona de casa prendada, de quem o marido se gabava. Tudo era simples e barato, ninguém enricava com a festa. A novidade era a radiola portátil, e os conjuntos eram pobres de tecnologia, mas os instrumentos ricos de som e harmonia, manuseados com habilidade e gosto, na execução do repertório da festa do milho. Quando São Pedro se ia, ficava um aroma de saudade na fumaça das derradeiras fogueiras e no espocar dos últimos fogos.
Sosígenes Bittencourt

Friday, June 15, 2007

Ariano Suassuna


Ariano Vilar Suassuna
e autor dos célebres Auto da Compadecida e
"A Pedra do Reino".
É defensor militante da cultura brasileira.
Aos 80 anos, Ariano Suassuna
se diz apaixonado pela vida,
por sua mulher e pela literatura.
"Não leio por hábito,
leio por paixão."

Thursday, June 14, 2007

Não ria se puder




Aula de medicina


No Curso de Medicina, o professor se dirige ao aluno e pergunta:
- Quantos rins nós temos?
- Quatro! Responde o aluno.
- Quatro? Replica o professor, arrogante, daqueles que se comprazem em tripudiar sobre os erros dos alunos.
- Traga um feixe de capim, pois temos um asno na sala - ordena o professor a seu auxiliar.
- E para mim um cafezinho ! Replica o aluno ao auxiliar do mestre.
O professor ficou irado e expulsou o aluno da sala. O aluno era, entretanto, o humorista Aparício Torelly Aporelly (1895-1971), mais conhecido como o "Barão de Itararé".
Ao sair da sala, o aluno ainda teve a audácia de corrigir o furioso mestre:
- O senhor me perguntou quantos rins "nós temos". "Nós" temos quatro: dois meus e dois seus. Tenha um bom apetite e delicie-se com o capim!
"A vida exige muito mais compreensão do que conhecimento!"

Tuesday, June 12, 2007

Santo Antônio Casamenteiro




Santo Antônio Casamenteiro é o protetor do casamento.

Qual o santo protetor do divórcio?
Sosígenes Bittencourt

Monday, June 11, 2007

Véspera



Carlos Drummond de Andrade

(1902-1987)

Não ensaies demais as tuas vítimas,

ó amor, deixa em paz os namorados.

Eles guardam em si, coral sem ritmo,

os infernos futuros e passados.

Friday, June 08, 2007

Fala, Vitória










Angélica mudada

Como Angélica mudou. Ninguém a conhece mais. A menina que vendia detergente, moradora das Malvinas. Louca para vencer na vida, quase perde o juízo, pois nem podia estudar. Vivia estafada de tanto viajar pelo interior, na labuta para obter o sustento de sua família. Trabalho intelectualmente estéril, muscular, cuja grandeza consistia em buscar a manutenção de seus dois filhos, pais e irmãos, com a misericórdia que move as almas que amam. Misericórdia vem de misereo + cor, que quer dizer com a miséria no coração. A magnífica capacidade de abrigar a dor do outro dentro de si mesmo. Alguns, os mais curiosos, mais lidos, chamam-na de empatia. Seu nome é Angélica, misto de menina de origem pobre e postura de anjo. Quando se viu, porém, sem horizontes, em Vitória de Santo Antão, danou-se para o Sul do país. Depois de morar no Rio de Janeiro, a outrora apenas Cidade Maravilhosa, passou-se para São Paulo. Tudo isso faz 6 anos. De repente, eis que me aparece, à noitinha, na Pizzaria e Restaurante Chaplin, lugar onde converso com amigos e repasso o que li durante o dia. Naquele instante, como um CD de forró eletrônico nos proibisse de raciocinar, fomos para a praça. Em meio a meninos pedindo um real e alunas que gazeiam aulas para namorar, a observação: “Isso aqui não muda nunca.” Finalmente, sentados em frente a uma barraquinha de cachorro-quente, iniciamos a conversa:

– O que queres beber, Angélica ? – pergunto, abismado com o verniz de educação adquirido pela menina.

– Um guaraná – para o meu maior espanto.

– Que vieste fazer neste mundo velho ?

– Procurar o pai dos meus filhos para fazê-lo cumprir a Pensão Alimentícia dos menores, e descobrir quem sacou o PIS de meu falecido pai que, calejado de trabalhar na agricultura, nunca se aposentou.

– Valha-nos, Deus!
Sosígenes Bittencourt

Tuesday, June 05, 2007

Estudando Português


Emprego dos Pronomes
PARA EU ou PARA MIM?
Compare as expressões:
Tire a roupa, para eu examiná-lo.
Isso é muito constrangedor para mim.
Na primeira frase, o pronome eu tem a função de sujeito.
Na segunda frase, o pronome não tem a função de sujeito. Por isso se emprega mim, e não eu.
ENTRE EU ou ENTRE MIM?
O padrão culto da língua exige o emprego do pronome mim em expressões como entre mim e você, entre mim e ele(a)(s), uma vez que não desempenha a função de sujeito.
Nunca houve nenhuma briga entre mim e você.
Entre mim e ela, sempre haverá uma amizade sincera.
CONSIGO ou COM VOCÊ?
O pronome consigo é reflexivo; por isso, no padrão culto, não deve ser empregado em referência à pessoa com que se fala.
Leve consigo suas roupas. (pronome reflexivo)
Preciso falar com você.
DEIXE EU VER ou DEI-ME VER?
No padrão coloquial da língua, é comum ouvirmos "Deixe eu ver". Embora correto, porque o pronome é o sujeito do verbo, no padrão formal e culto empregam-se os pronomes oblíquos átonos em vez dos retos. Isso ocorre por razões de eufonia, isto é, para o som ficar mais agradável.
Deixe-me ver seu vestido novo.
Mande-a sair.
Eu a vi entrar.
Use o pronome indicado:
1) Empreste o livro para ..... ler. (eu/mim)
2) Empreste o livro para ..... (eu/mim)
3) Quero ir ao cinema ..... (consigo/com você)
4) Vi ..... entrando no supermercado. (ela/a)
PORTUGUÊS: LINGUAGENS
William Roberto Cereja e
Tereza Cochar Magalhães

Monday, June 04, 2007

Gilberto Freyre


(1900 — 1987)
Sou um homem paradoxalmente contraditório, sedentário e nômade, gosto de minha província e gosto de viajar.
Gilberto Freyre