Fenômenos acontecem.
Ronaldo é um deles. Tem gente que rala de ficar no couro e o osso, emagrece no suadouro da labuta e morre de desnutrição. Também são
fenômenos. Mas, como esses fenômenos anônimos são infinitamente mais
comuns, Ronaldo torna-se um fenômeno infinitamente mais
raro. Correndo atrás de bola, não dando bola pra mais nada na vida, tira
ouro do nariz. Ronaldo não corre atrás de
dinheiro, corre atrás de bola, o dinheiro é que corre atrás.
Ronaldo é um sortudo. Até o travesti que o acusou de ter tido relação com ele (ou ela) sei lá... já morreu, e Ronaldo segue vivendo, como se nada tivesse acontecido. Muita gente tem hipotireoidismo, toma remédio, é o maior sofrimento. Ronaldo também tem, mas o médico esconde, vira segredo, para não prejudicar a imagem de Ronaldo. Seu hipotireoidismo é tratado em sigilo e, quando vai para o ar, na voz do "Fenômeno", é um sucesso. Ronaldo é um sucesso. Sucesso, sem que se saiba, na realidade, o que aconteceu para tanta glória, tanto triunfo, só pode ser fenômeno, embora a bola o procurasse, fosse um animal de estimação embolando a seus pés. Quando não acertava na manobra, a própria bola se encarregava de fazer o percurso. Convidado a dar explicação, fala lento, suspira, fica mais cansado do que dentro do gramado. Porque nem aprendeu a falar direito, foi escrever com os pés. Ronaldo dá caneta no adversário, banho de cuia nos goleiros.
E Ronaldo chora. Parece um bezerrinho desmamado, despertando compaixão. Porém, suas lágrimas não são uma choradeira comum, daquelas solitárias, sem eco nem misericórdia. É choro filmado, provocando o choro da multidão.
Agora, Ronaldo vai descansar. Foi muito dura a batalha, quase o matam de tanto pontapé. A brutalidade dos invejosos, dos desalmados, o transfomaram num flagelo do futebol. Mas, até nisso, teve sorte. Virou herói, aplaudido, apaparicado, um mito. Emocionado, chora e sorri ao mesmo tempo. É muita bola do destino para um só coração.
Espetacular abraço!
Sosígenes Bittencourt