Tuesday, December 13, 2011

FRAGMENTOS

O apaixonado imagina o objeto da paixão

e abraça-se com a imaginação.

Sosígenes Bittencourt

Sunday, December 11, 2011

O abismo da paixão

É difícil acreditar que Jadielson e Silvânia se atiraram no abismo, de mãos dadas, numa versão shakespeareana de Romeu e Julieta. É mais provável que Jadielson tenha arrastado Silvânia para morrer consigo, o que caracterizaria homicídio e suicídio no mesmo salto. Parece um caso típico de paixão. Dois apaixonados que não conseguiam se desvencilhar dos grilhões da loucura e seguirem em paz. O filósofo alemão Nietzsche dizia que “Há sempre um pouco de loucura no amor, mas há sempre um pouco de razão na loucura.” No fundo, eles, talvez, tivessem razão. Não dava mais para viver. O detalhe é que Silvânia preferia viver sofrendo a perder a vida, e Jadielson não aguentava mais tanta agonia. Era paixão em mão dupla.
O que fora fazer Silvânia, já separada, na Serra das Russas, justamente com Jadielson, sabedora do desespero do ex-marido? É que o apaixonado é sempre um assujeitado, um submetido, ele não tem forças para a paixão. Estavam escravizados por um sentimento sem norte, sem direção, sem noção de causa e efeito. Juntos, se desentendiam; separados, sentiam saudade. Um era a droga do outro, bem descrito nos versos:
Meu vício é você! / Meu cigarro é você! / Eu te bebo, eu te fumo / Meu erro maior / Eu aceito, eu assumo / Por mais que eu não queira / Eu só quero você...
Um desejo, não pelo prazer, mas pelo objeto. Porque prazer que dói se resume em sofrimento. Jadielson e Silvânia morreram na Serra, dando sequência ao abismo em que se atiraram. Andavam abismados.

Desesperado abraço!
Sosígenes Bittencourt

Thursday, December 08, 2011

Malvadezas natalinas

Cuidado com as malvadezas do período natalino. Não vá ficar de cara pra cima, pensando que a humanidade se transformará numa procissão de entes de luz. Fique ligado. O menino Jesus está na lapinha, mas a rua, cheia de Judas Iscariotes.
Foi o que aconteceu a uma estudante universitária, lá no semáforo em frente à Casa dos Pobres, no centro de Vitória de Santo Antão. Um monstro encostou na janela do carro, pediu que lhe passasse a chave do veículo e se mantivesse sentada. O demônio queria que a vítima dirigisse para ele. Foi quando, desesperada, ela abriu a porta e saiu correndo na direção do Colégio Antônio Dias Cardoso, enquanto ele dava partida, margeando o prédio do Fórum.
Aqui, no bairro do Cajá, três meninos passam o dia roubando, e a população só mancuricando. Todos comentam, conhecem os pivetes pelo nome, data de nascimento e árvore genealógica, mas ninguém se mete. Diz que tem um maiorzinho, um médio e um pixototinho. Quando se pergunta: - Você conhece os meninos que roubam aqui no bairro?
Logo se responde: - Claro. Eles moram ali e são filhos de seu fulano e dona fulana.
Nesses dias, aparece uma vítima de natureza árabe ou chinesa e larga um ‘mói’ de bala no cangaço de um deles. Não é brincadeira. Aconteceu com um galeguinho que cheirava cola de sapateiro e vivia roubando aqui no bairro. Ele mesmo comentava: - Eu penso que vão me matar.
Não era pensamento, era certeza. Contam que pegaram ele, dormindo num sofá velho, lá nos cafundós, e meteram ficha.
Portanto, cuidado aí, macacada. Não vá pensar que o clima é de paz e amor, e esquecer a guerra e o ódio que fazem parte da natureza humana. Quem penetra no recinto de sua residência, ou põe uma arma de fogo na sua cabeça, não está amando nem lhe dando boas-vindas, está em guerra com o mundo e odiando os seus semelhantes.
Vigilante abraço!
Sosígenes Bittencourt

Tuesday, December 06, 2011

Palmadas na berlinda

As palmadas estão na berlinda. Antigamente, menino apanhava, mas não morria no pau. Nunca vi pai matando filho, nem estuprando, engravidando filha, como hoje. A radicalização da medida que proíbe palmada em criança deve advir da violência perpetrada contra menor, sobejamente divulgada no dia a dia da mídia nacional. Nos idos, menino levava palmada, adolescente tomava lapada de cinturão, mas não me lembro de nenhum infanticídio. Aliás, crimes, perpetrados há 40 anos na cidade, contam-se nos dedos. Talvez, porque a população fosse pequena e o jornalismo não desse a cobertura, em tempo real, como agora. Mas, baseando-se na rotina, o adulto de hoje não tem moral para bater em menino, não merece confiança. Qualquer um é suspeito. Tanto que virou esquizofrenia coletiva. Você não pode se acocorar para dar um caramelo a uma criança.

Na cidade de Pinheiros, no Maranhão, um preso foi decapitado pelos carrascos de estimação porque teve uma ninhada de filhos com a própria filha. Por outro lado, a mulherada arruma estuprador como padrasto e, depois de 5 anos, fica dizendo que não sabia. Essa medida deve ser um castigo para os adultos, para o seu péssimo comportamento. Há mais de meio século, na minha cidade, uma professora botou o filho do prefeito, na calçada da escola, com uma banca na cabeça, e o pai achou normal. Ainda deu-lhe um corretivo em casa. O resultado poderia ter sido desastroso, mas o menino deu pra gente. Hoje, uma professora dá uma nota baixa a um aluno e tem a cara arranhada e os braços fraturados. Significa dizer que os adultos perderam a força moral nos exemplos do cotidiano. São políticos sacanas, televisão pornográfica, consumismo desenfreado, supervalorização do TER sobre o SER, impunidade, tudo exibido exaustivamente aos olhos pidões da meninada. Depois, exige-se respeito. O adolescente de hoje é resultado do adulto de hoje, do mundo de hoje. A televisão, por exemplo, sexualiza a adolescência e escandaliza com a consequência. Quer dizer, lucra dos dois lados. São beijos de desentupir pia, virilhas se encontrando. Ninguém aguenta.


Em resumo, não existe palmada educativa. Nenhum ser humano será anjo, ou demônio, porque tomou, ou deixou de tomar palmadas. Entre um pai e um filho, há um abismo imenso, como entre um marido e uma esposa, um patrão e um empregado. Portanto, palmada pode, perfeitamente, ser considerada agressão física. Ora, se um homem não pode bater numa mulher pela disparidade física, por que um adulto poderia bater numa criança? Quando um homem bate numa mulher, sempre acha que tem razão. Quando um pai bate num filho, sempre acha que tem razão. Arvoram-se em juízes. Mas, será que as vítimas acham que merecem apanhar? Ou reagiriam, se pudessem? Não seria o caso de analisar as razões do ódio, já que o ódio jamais será extirpado do coração humano? Impõe-se uma indagação: por que será que os índios não batem em criança?
Polêmico abraço!
Sosígenes Bittencourt

Monday, December 05, 2011

Foto

Parece um desenho, mas não é. Trata-se de uma montagem fotográfica da arte surrealista e poética do holandês Ruud Van Empel, que irá expor suas belíssimas montagens na Bienal de São Paulo, em 2012, na comemoração ao Ano da Holanda no Brasil. Sua obra é de mexer com a respiração. Um verdadeiro ESPETÁCULO!

Inspirado abraço!

Sosígenes Bittencourt

Saturday, December 03, 2011

Eu tive uma namorada em Caruaru

Isso foi na década de 70. Eu era adolescente e achei de me engraçar de uma menina lá em Caruaru. Todo domingo, eu ia passear na pátria de Vitalino. Pulava da cama cedo, me enfatiotava todinho e ia pra BR, pegar ônibus. Os ônibus apostavam carreira. Tinha da São Geraldo - parece que da Jotude - e Caruaruense. Eu viajava com a cabeça na janela para ver a paisagem. A ventania ficava fazendo uma zoadinha no ouvido. Seguia pensando na vida, imaginando o futuro, no horário da esperança. Não sei por que, mas associo a aurora ao porvir. Já minha avó Celina dizia que a noite era a hora da saudade. Sei lá...
A princípio, eu ia assistir a filmes no Cine Santa Rosa e Irmãos Maciel. O Cine Santa Rosa ficava na pracinha, como quem ia para o Bairro do Salgado. Um dia, passou Dr. Jivago, com Omar Sharif e Julie Christie, um filme americano de 1965. O pessoal do meu tempo deve se lembrar. Eu comprava uma carteira de Continental, sentava na avenida e pedia uma cerveja Antártica Paulista. Pedia Brahma Chopp também. Parecia um hominho. Foi quando, passeando pela Feira de Caruaru, conheci uma vendedora de sandálias, alpercatas, um bocado de coisa de couro. Olhos pretos em moldura amendoada, pele morena afogueada, feito um cavalo alazão. Era todinha um chocolate. Nem parecia gente, parecia uma figura de livro, de romance, de literatura. Ou qualquer coisa que só aparece em sonho. Os cabelos batiam na cintura, e a boca tinha um eterno frescor de chiclete Ping-Pong. Eu ficava o dia todo peruando pra namorar com ela. Um dia, a gente namorou numa esquina lá na Caruá. E eu terminei dormindo na Princesa do Agreste, inalando aquele cheirinho de travesseiro de marcela que tem praquelas bandas. Chega dava sono. A morena era boazinha que era danada, toda silenciosa, andava devagar e ria baixinho. Os olhos é que eram tagarelas. Dava vontade de comer um pedaço, embora, naquele tempo, a gente namorasse de roupa, era proibido namorar nu. Eu ficava tão contente que botava pra contar história. Dava um pigarro e enfeitava a conversa. Meus colegas diziam que eu estava mentindo. Minha mãe também pensava que eu mentia. Um dia, descobriu que era poesia.
Adolescente abraço!
Sosígenes Bittencourt

Friday, December 02, 2011

FRAGMENTOS

Como bom jogador, Marcelinho Paraíba precisa aprender a driblar arapuca.

Sosígenes Bittencourt

Thursday, December 01, 2011

Justiça à margem da Lei

A Justiça é cega, mas os homens é que se negam a enxergar o Direito. Marcos Mariano da Silva, perante Themis, a deusa de olhos vendados, não tinha cor, credo nem classe social. Mas, os seus algozes o viam como ex-mecânico, homem sem posses, riqueza, desprovido de beleza. Marcos Mariano não tinha nada que chamasse a atenção dos causídicos, nada que os seduzisse, por isso foi vilipendiado. Porque não há desprezo maior do que você negar justiça a quem merece.
Marcos Mariano não passou 19 anos preso, como inocente, sem que a Justiça o soubesse. Porém, a Justiça só se faz pela ação do homem. E onde estava esse homem? Quem são esses pérfidos indiferentes? A Lei, enquanto teoria, é apenas uma flauta, alguém terá de soprá-la.
Embora cego, Marcos Mariano sabia a verdade, enxergava dentro, mas era um Tirésias esquecido. Como confiar naqueles que lhe negaram a liberdade? Como acreditar na Justiça nas mãos de quem a nega? Porque Marcos Mariano da Silva não foi tratado como marginal, a Justiça foi que agiu à margem da Lei. E de que adianta, agora, indenizá-lo, se ele está morto? Cegou dentro do presídio e morreu sem enxergar a liberdade. Morreu sem poder ver as noites e os dias. Como imaginar que o ex-mecânico Marcos Mariano foi torturado até a morte por aqueles que tinham o dever de lhe conceder o direito de viver?
Vilipendiado abraço!

Sosígenes Bittencourt

Tuesday, November 29, 2011

Um dia, eu fui bater em Mocotó

Um dia, eu fui bater em Mocotó. Mocotó fica na zona rural de Vitória de Santo Antão. Para chegar a Mocotó, vai por Natuba e tem a Ladeira do Comprido. Em Natuba, tem alface que só.
- Onde fica Mocotó? – pergunta-se ao matuto.
- Ali, logo ali. Vá indo, que o senhor chega lá. – estirando os beiços.
E tome a botar marcha, acelerar e debrear, suspirar, cantarolar, o vento assanhando o cabelo. Eu tinha cabelo naquela época. Mocotó já foi lugar de se contratar empregada doméstica. Isso foi no tempo em que empregada só prestava se fosse de sítio. Hoje, elas assistem a Malhação.
E lá ia, eu, pra Mocotó em meu Chevette bege, carregando duas camaradas assanhadas e uma garrafa de pinga. Sequer precisava, posto que, na barraca de Pedro Amaro, só era o que tinha. Até garrafa de Pitú com tampa forrada de cortiça, empoeirada na prateleira. Coisa rara. Diz que uma custa cem mil réis. Aí, botamos pra jogar sinuca e bebericar manguaça com linguiça. Sardinha também. Juntou foi gente.
- Dona fulana, vê quem tá na venda!
- Quem?
- Aquele professor lá da cidade.
Foi em Mocotó que eu vi uma velha de bigode. Um "mói” de gato espalhado pelo chão. Tinha bichano até debruçado na janela. Foi num arruado chamado Vila Marinho.
Mas, no pega-bebo de Pedro, entre uma tacada e outra, uma talagada e outra, uma piada, uma distração, uma risadagem danada. Isso foi durante a tarde todinha.
De repente, começou a anoitecer em Mocotó. Arrumamos os picuás e botamos pra voltar. O Chevette, ora acelerava, ora bufava. Parecia que era o carburador, o giclê entupido. Dava catabi na rodagem. O lençol da noite vinha forrando o dia. Tinha uns meninos pegando carona, encardidos, cheirosinhos a verdura, contentes que só pinto no lixo. Um deles manifestou: - Êita coisinha boinha, mô Deu.
E como não podia deixar de ser, paramos na primeira venda em Lagoa Redonda. As lambisgóias estavam danadas de enxeridas, falantes e esfomeadas.
- Me dá a saideira aí, seu fulano!
E o velho, solícito: - Pois não, meu jovem.
Também vinha pensando: esse mundo jamais fará reforma agrária.
Vesperal abraço!

Sosígenes Bittencourt

FRAGMENTOS

Estudante de Vestibular já está careca de saber
que não se passa em Vestibular sem saber.
Sosígenes Bittencourt

Sunday, November 27, 2011

A invenção de cotas raciais

Essa questão de cotas raciais é uma postura mais de natureza política do que outra coisa. Porque a grande causa do fracasso de negros em concursos públicos e nos vestibulares é a educação de má qualidade. Por quê. Sobretudo porque são pobres. Ora, se você cria cotas para os negros pobres, onde ficariam os brancos pobres? A questão me parece não ser relativa à cor, mas relativa à acessibilidade ao ensino de qualidade. E essa é uma responsabilidade do Estado. A artimanha política é criar sistema de cotas para negros para angariar simpatia da população negra, que é a maioria. Se você for indagar os próprios negros, eles acharão que esse sistema de cotas é uma forma de discriminação. Por exemplo, aquele negro que opta pelo sistema de cotas já denuncia sua incapacidade de disputar num outro tipo de sistema. Ademais, você para instituir um sistema de cotas terá que, obviamente, saber se aquele negro deve ter acesso a um ensino de qualidade, ou não. A pergunta é a seguinte: por que não se cria sistema de cotas para brancos? Há brancos pobres que não têm acesso a ensino competente. Portanto, o grande empecilho não deve ser encarado como a cor, mas como a deficiência no ensino público, que não oferece iguais condições de competitividade entre as classes sociais. O estado não investe, nesta área, como deveria. Por isso, os melhores professores vão para as escolas particulares e fogem das escolas públicas. O discurso é de que educação é prioridade, mas nunca foi, é falácia. É "tertulia flacida ad bovinum adormentarem", ou seja, conversa mole pra boi dormir.
Também seria bom frisar que igualdade, nos termos políticos em que se coloca, para galvanizar popularidade, é engodo, um mito, fundado pela Revolução Francesa. Ela nunca existirá. As pessoas, por si mesmas, estabelecem desigualdades. Porque, paralelamente, depende do empenho de cada um, de talento, de competência. Mesma condição não significa mesmo resultado.
Indiscriminado abraço!
Sosígenes Bittencourt

Friday, November 25, 2011

Vila Nova 0, Sport 1

Êita, agonia danada! A equipezinha do Vila Nova veio com uma récua de reservas, mas doido para entrar para a história do futebol. Naturalmente, empurrados por um Papai Noel generoso, que deve ter-lhes prometido uma graninha, é claro. O goleiro do Vila Nova pegava bolas espíritas, mesmo com Marcelinho Paraíba fazendo miséria nos lançamentos e cobranças de escanteio. Aí, desabou um dilúvio. O céu ficou carrancudo, começou a lançar uma incógnita sobre o futuro. Eram muitos corações prestes a infartar. Contudo, em meio ao desespero, o destino parecendo enevoado e bruno, profundamente triste, lá vem Bruno, o Mineiro, conduzindo o triunfo na trajetória de sua carreira. Ninguém poderia adivinhar, até implicava. Nem desconfiava que o destino estava exatamente ali, traçado na cabeça de Bruno. E o Sport foi macho até debaixo d'água. Nem as piscinas, armadas pela chuva, impediram o Leão de subir de Divisão. O Sport soube navegar, equilibrar-se na areia movediça. Até que, entre o Leão e o Tigre, Luís Cetin terminou tomando um frango. Agora, é só comemorar o casá! casá! casá!

Essa vai para minha avó Celina - já residindo na Eternidade - que tomava banho e botava perfume, para ouvir os jogos do Sport pelo rádio.

Rubro-negro abraço!

Sosígenes Bittencourt

Thursday, November 24, 2011

FRAGMENTOS

* Eu sonhei que estava morto e continuava estudando.

*Solidão intelectual é ter o que dizer e não ter a quem dizer.
*A minha juventude já não é na lanternagem, é na mecânica das ideias.
*A paixão é a desobediência do desejo.
*Ninguém quer admitir que tem uma parcela de culpa e, por isso, um saldo de padecimento.
*Tem gente indo a pé, porque tem parlamentar voando com o seu dinheiro.
*Não há melhor agasalho que o abraço da pessoa amada.
*Se o salário correr, a inflação pega; se ficar, a inflação come.
*Minha vida é suspender o véu dos preconceitos para enxergar o interior das mulheres.
*Quem tem tudo na vida é O CARA, quem não tem nada na vida é O DESCARADO.
*Meninas grávidas nos verdes anos são como frutas amadurecidas no carbureto.

Sosígenes Bittencourt

Tuesday, November 22, 2011

Ladrão soft

O ladrão soft já não vai à agência bancária,
assalta de sua própria residência.
O ladrão soft é todo ético,
não quer o dinheiro do cliente,
quer o dinheiro do banco.
O ladrão soft é todo filosófico,
acha que o cliente é o assaltado,
e o banco, o assaltante.
O ladrão soft é todo prudente,
não quer pegar em arma, trocar tiro com a polícia,
arriscar a vida nem por em risco a vida alheia,
por isso fica em casa, protegendo a família.
O ladrão soft é todo religioso,
acredita que roubar é pecado,
mas tem fé no ditado: ladrão que rouba ladrão
tem cem anos de perdão.
O ladrão soft é calorento e cheio de frescura,
não quer transpirar, correndo pela avenida,
prefere o ar-condicionado do escritório,
para roubar, refrigerado.
O ladrão soft é todo tecnológico, cibernético,
clona seu cheque sem abrir o portão,
sabe seu saldo sem ir ao banco,
transfere dinheiro pela compensação.
O ladrão soft é um ser social,
vai a aniversário, casamento, batizado,
só não vai ao delegado, para não ser grampeado.
O ladrão soft é todo especial.
Para ele, foi fundado o Direito Digital.
O ladrão soft tem estilo, anda todo emperiquitado.
Paletó, gravata. Todo enxerido, solta bravata.
O ladrão soft é todo educado:
- Vocês poderiam me passar os pertences, por favor?
E depois do rapa:
- Deus vos dê em dobro o que eu vos tenho roubado.
Sobressaltado abraço!
Sosígenes Bittencourt

Saturday, November 19, 2011

Fala, Vitória

Mestre Zé Guedes
Hoje, creio que pouquíssimas pessoas sabem que quem construiu os jazigos da primeira entrada do Cemitério São Sebastião foi meu bisavô, José Guedes da Costa. E não só, ele também esculpiu os frontispícios do Cemitério e do Mercado de Farinha.

José Guedes era pai de minha avó materna, Natércia Guedes Pereira. Ele morava em frente ao cemitério, onde hoje deve ser uma Casa Funerária que oferece espaço para velar os mortos. Conta, minha mãe, que levava bolacha com café para ele lanchar no canteiro da construção.

José Guedes não tinha formatura em nada e burilava suas obras com a ponta da colher de pedreiro. No braço, estava o caminho entre a intuição e a arte. Foi assim que cinzelou o brasão do Mercado de Farinha, ainda hoje do mesmo jeitinho, porque ninguém saberia refazer a arquitetura tal e qual o Mestre Zé Guedes, com a mesma desenvoltura, a mesma técnica.

Foi no tempo do fogo-fátuo. Minha mãe ficava pastorando o cemitério, escondidinha, para ver as línguas de fogo que saíam das covas. Eu ainda me lembro dessa história que contavam quando era menino lá na Feira das Panelas. A luz era da Pirapama, as ruas ensombradas, e o medo, de caveira, de assombração.
Monumental abraço!
Sosígenes Bittencourt

Friday, November 18, 2011

Fala, Vitória

DANILO FONTES E PESQUISA

Menino exemplar é Danilo Augusto Ferreira Fontes, estudante e pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco, filho de dona Eliana. Deve ser fruto de uma composição triádica infalível: educação doméstica, escolar e bom uso da inteligência.
Quem me contou a história foi sua própria genitora - obviamente envaidecida com a conquista de seu rebento - lá na pracinha do Forum, onde pegamos o ônibus do Instituto Federal de Pernambuco em Vitória de Santo Antão. Dona Eliana faz o PROEJA no IFPE, e Danilo apresentou trabalho de MESTRADO na UFPE.
O foco central da laboriosa pesquisa do estudioso aluno é o tratamento da AIDS, cuja proposta é uma maior eficácia terapêutica com redução de custos. O medicamento proposto por Danilo faz bem a todo mundo e ao mundo todo, tanto clínica como financeiramente. Resulta de trabalho orientado pelo prof. Pedro Rolim Neto, apresentado em agosto por Danilo Fontes, assessorado por equipe no Laboratório de Tecnologia dos Medicamentos. Trata-se de alívio, na via crucis do tratamento, pela junção dos fármacos Zidovudina, Lamivudina e Efavirenz em um só comprimido, reduzindo a dose, de três, para duas vezes ao dia. Só para ilustrar, minha mãe toma um remédio que tem de bater no liquidificador, 3 vezes ao dia, e submeter-se a deglutir um copo de repugnante sabor.
Os medicamentos, que antes apareciam em 3 comprimidos diferentes, são antirretrovirais que inibem a reprodução do vírus e retardam a imunodeficiência. Debruça-se sobre a ciência a sabedoria.
Para você ter uma ideia da importância da invenção, haverá economia em matéria-prima e transporte, num país que já tem 730 mil pacientes contaminados, com 200 mil sendo acudidos pelo SUS, cuja despesa sangra 1 bilhão dos cofres públicos por ano.
Que Danilo Fontes seja a fonte de novas sabedorias.
Científico abraço!
Sosígenes Bittencourt

Dr. Francisco Habermann

Dr. Francisco Habermann é nefrologista e docente da Faculdade de Medicina de Botucatu desde 1970. Dedicado e impressionado com doenças cardiovasculares e renais crônicas, desenvolve campanha para que seja oficializada a "Semana da Hipertensão". Entrevistado, no Canal REDEVIDA, por Dom Antônio, falou sobre o que se deveria fazer para obter boa qualidade de vida. Primeiro, deu uma orientação muito simples, porém extremamente benéfica à saúde: tomar um copo d'água em jejum. Depois, como regra geral, observou que deveríamos "comer a metade, andar o dobro e rir o triplo." E ainda nos aconselhou, como fundo musical, ouvirmos Música Clássica, sugerindo "As 4 Estações", do padre ruivo Antônio Vivaldi.

Dr. Habermann demonstra ser um profissional que, além de amar o ofício escolhido, possui o dom de reabastecer os seus pacientes de FÉ. Simplesmente, espetacular!

Salutar abraço!

Sosígenes Bittencourt

Fragmentos (retrospectiva)

(Há 24 anos)

*Deus deu ao homem a água, e o homem deu ao homem a conta d’água.
*No Dia de Finados, choramos por nossos mortos e por nós mesmos um dia.
*Na orla marítima, em tempo de fio-dental, o binóculo procurava um biquíni.
*O que mais aconselharia à polícia era não botar a mão no preso com o ódio do contracheque.
*Agiota até no amor, só dá um beijo por dois.
*Só nas Provas de Recuperação é que se conhece o pai do aluno irrecuperável. (Novembro - 1987)

(Há 23 anos)

*120 dias de licença-maternidade são mais do que o suficiente para a mulher retornar grávida ao trabalho.
*O preço do tira-gosto tira o gosto de beber.
*No dia das eleições, é proibido vender bebida alcoólica e fugir da cachaça de votar.
*Urge que se crie o Pronto Socorro do tempo, para socorrer as vítimas do Horário de Verão.
*Mais um avião cai na Cordilheira dos Andes. Impõe-se um conselho: não andes pela Cordilheira.
(Novembro - 1988)
Sosígenes Bittencourt

Wednesday, November 16, 2011

Quadro de Frases

Se Deus não existisse, seria preciso inventá-lo.

Voltaire

Tuesday, November 15, 2011

Eu sonhei que estava em Recife

Eu sonhei que estava no Recife Antigo, na década de 80, às tantas da madrugada. Parava na esquina, puxava um Hollywood do bolso e acendia. Depois de soltar uma baforada, ficava pensando: por aqui já passou muita gente que já morreu.
Ali, antigamente, tinha um bocado de cabaré. Era bom demais. Rua da Moeda, Vigário Tenório, Torre Malakoff... O Oceano Atlântico ficava ali na frente, ventilando, cheiroso, fazendo uma zoadinha. Tinha o Tonny Drink’s, o Capitólio, Night and Day... As meninas eram esguias, vestidinho curtinho, tamanquinho e rabo de cavalo. A boite estava aromática, ervas pelo chão, uma bola prateada girando à luz negra. A gente pagava 5 mil réis e tinha direito a uma dose de Ron Montilla com um limão escanchado na beira do copo. Recebia, também, um saco de pipoca milho em flor. Aí, veio uma camarada branquinha, sentou-se ao meu lado, apoiou o queixo sobre as mãos enclavinhadas e perguntou: - Tudo bem?
E eu, todo amostrado: Melhorou muito!
Pegou na minha mão, deu um cheiro na minha bochecha e me tirou pra dançar. A gente dançava solto, uns ritmos quentes, americanos. Quando ela ria, o rosto ficava todo iluminado, parecia que eu estava sonhando. Eu era maneiro, o sangue desintoxicado, todo novo. Nunca me esqueço desse sonho que já sonhei tantas vezes. Nunca me esqueço de que, quando fomos dormir, ela escovou os dentes. É a vida. Nem tudo a gente pode contar. O sexo ficou para a cama, e os segredos do amor, para o coração.
Onírico abraço!
Sosígenes Bittencourt