Monday, November 24, 2008

Niède Guidon: arqueologia com preocupação social



José Carlos Oliveira: A senhora é autora de um artigo no qual fala que teríamos até passado dos limites de utilização, de avanço tecnológico e que o homem está entrando numa rota de depredação da natureza. Essa rota é sem volta, ou os alertas da ONU, sombrios em relação às mudanças climáticas e ao aquecimento global, podem despertar algum tipo de conscientização que nos faça mudar o comportamento?
Niède Guidon: Ainda não vi nenhuma política adotada para isso. Veja, por exemplo, o comportamento dos animais, porque dizem que nós, os Homo sapiens, somos inteligentes; os outros, não. Então, veja o comportamento dos animais. A televisão japonesa fez um filme belíssimo com os macacos-prego. Quando existe pouca caça, um ano que não chove muito e não tem frutas, eles não se reproduzem. Eles sabem que quando se põe no mundo um bebê, é preciso dar-lhe comida, e se não existe comida, como vai ser? Então, a nossa política, infelizmente, visa o lucro: mais consumidores; quanto mais gente houver, mais os empresários vão ganhar. Então, existem governos que têm essa política de aumentar a natalidade. Tenho um funcionário que é analfabeto, ganha um salário mínimo e tem 23 filhos. Então, precisamos nos conscientizar. Há terra para produzir comida para todas essas pessoas? E agora, que ela vai produzir combustível, onde vamos plantar? Tem que desmatar tudo. E qual o resultado disso? Acaba a biodiversidade. Já tivemos a prova disso em vários países que começaram a praticar grandes monoculturas, mas quando vem uma praga acaba com tudo. Aqui, no Brasil, aconteceu uma vez com o café, acabou com tudo. Mas parece que o homem não aprende. Tudo isso partiu do momento em que se criou a propriedade e a questão do dinheiro. O que é o essencial para a sociedade de hoje? Ser rico, ter benesses. Hoje, para uma criança que assiste à televisão, o que é bacana? É ter todas aquelas coisas que estão ali, nas novelas. É isso o que ensinamos, e é esta a política: continuar a crescer; crescer e povoar o mundo, só que o mundo já está povoado.